5.4.04

O Caibalion

Existe um pequeno grande livro chamado O Caibalion, que é o mais potente abridor de latas mental com que eu já me deparei. Ele é absurdamente simples e complexo ao mesmo tempo. Tudo faz sentido. Aos que se interessam por filosofia e o imaterial, recomendo-o entusiasticamente.

Nos últimos dias venho pensando bastante a respeito de um dos princípios da filosofia hermética, o Princípio do Ritmo:

"Este princípio contém a verdade que em tudo se manifesta um movimento para diante e para trás, um fluxo e refluxo, um movimento de atração e repulsão, um movimento semelhante ao do pêndulo, uma maré enchente e uma maré vazante, uma maré alta e uma maré baixa.

Existe sempre uma ação e uma reação, uma marcha e uma retirada, uma subida e uma descida. Isto acontece nas coisas do Universo, nos sóis, nos mundos, nos homens, nos animais, na mente, na energia e na matéria".

Como tudo, o humor oscila segundo o princípio do ritmo, como um pêndulo. Indo de uma polaridade a outra. Feliz - triste. Feliz - triste. Feliz - triste. Segundo Hermes Trismegisto não adianta querer parar o pêndulo, pois ele faz parte do funcionamento do Universo. A alquimia consiste em se elevar, estar acima do pêndulo e assim não ser afetado por seus ritmos e oscilações.

Delirei quando descobri que transformar chumbo em ouro é uma alegoria e que a verdadeira transmutação é mental. Decidi que queria ser uma hermetista, uma alquimista!

A felicidade é criada e reside na mente. Depende apenas de nós. Entretanto, quando as coisas ao nosso redor vão bem, estamos bem. Quando vão mal, estamos mal. De alguma maneira é preciso encontrar um ponto de equilíbrio, uma serenidade interna, um estar bem consigo mesmo que independe das circunstâncias externas.

É difícil, mas não impossível. Ainda quero ser uma alquimista...

22.3.04

Matrícula

Passei 6 anos me matriculando na Fabico todos os semestres. A melhor expressão pra descrever essa experiência é "Inferno na Terra".

Cadeiras que apareciam sem nota, ou que desapareciam sem deixar rastro, opcionais estouradas, filas enormes, dedo no olho, os inevitáveis pedidos de quebra de pré-requisitos e assemelhados repetiam-se exaustivamente, sem o mínimo pudor.

Ainda marcada por todos esses anos de abuso, fui fazer minha matrícula no mestrado. Enquanto esperava a minha vez na pequenina fila (será que vim no dia certo???), tremia levemente.

A porta se abriu e a coordenadora chamou o próximo. Ei, eu sou a próxima! Uma gotinha de suor escorreu pelo canto do meu rosto e hesitei por um segundo. Então me leventei, determinada. Que venga el toro! Mas que sea paralitico!!!

Quando entrei na salinha um portal se abriu e todo o universo conspirou a meu favor. Seres angelicais feitos de pura luz sussurraram ao meu ouvido algo que poderia ser toscamente traduzido por "não tema mais, doce Ivana, peça e serás atendida".

Bliss! Oh, such great bliss!

Havia vagas em todas as cadeiras, e eu não só podia, como devia escolher as que mais me interessavam! A coordenadora me ajudou a preencher o formulário com um sorriso, levei a folhinha até a secretaria e pronto, estava matriculada. Assim, no mais.

Enquanto voltava pra casa, sorria comigo mesma.

12.3.04

Autógrafo

Então o mais bizarro e inusitado fato a ser imaginado aconteceu: a caixa do supermercado me pediu um autógrafo. (!!!!) E eu surtei e me recusei. (????)

Ainda tô tentando entender o que aconteceu. Ela perguntou se eu era "artista", eu disse baixinho que fazia cinema. Ela chamou todas as amigas que estavam na volta, apontou pra mim e disse "ela é artista, ela faz cinema"! Eu gelei e suei, pensei em sair correndo e deixar as compras. E aí ela disse que me viu na televisão e pediu o famigerado autógrafo. Ela nem sabia o meu nome, mas queria um autógrafo.

Ok, isso é fútil e medíocre, mas apenas um reflexo da nossa sociedade voltada para a fama, e o desejo de ser elevado da rotina sufocante das nossas vidas pequenas custe o que custar. E pra ela, ter um rabisco feito por alguém que apareceu alguns segundos na TV talvez já seja um começo. Não era motivo pro pânico que eu senti.

Mas então, por que o pânico?

Tenho problemas com esse assunto de "fama", isso é fato. Acho que o valor das pessoas não se mede por prêmios, por quem ela conhece, por quanto ganha, por quantas vezes apareceu na coluna social ou na TV. Me revolto com o esvaziamento de tudo o que é verdadeiramente humano: o conhecimento, o amor, o senso de comunidade, o caráter. Viramos todos macaquinhos atrás da banana da fama.

Mas confesso que não é só isso. Me assusto quando alguém que eu não conheço me conhece. Me sinto indefesa, me sinto exposta. Isso me fez pensar que talvez pessoas que eu não conheço leiam o que eu escrevo e me vejam fazendo caretas no fotolog. E isso é muito muito muito spooky.

Nós voluntariamente nos despimos na frente de desconhecidos, estendemos as entranhas em cima da mesa pra quem quiser ver. E por que? Auto expressão? Talvez. Exibicionismo? Mais provável. Talvez na expectativa de que aqueles que nos conheçam aprendam a nos conhecer mais um pouco.

E se isso me assusta, faço o que? Deleto blogs, fotologs, carreira? Acho que não. Vou ter que lidar com as minhas fobias. E pedir desculpas à menina do supermercado. Que não deve ter entendido nada. Assim como eu.

27.2.04

Ainda Akhenaton

Os noticiários das 20 horas nos informam que, por ocasião do plano governamental de duplicação das auto-estradas e das vias de TGV no Hexágono, o INSEE e o INED, conjugando esforços, coordenaram uma grande pesquisa sobre a relação dos homens com a velocidade.

À pergunta "Por que deseja andar cada vez mais depressa?" as respostas foram as seguintes:

• Para chegar mais rápido até a frente da tela de TV: 20%
• Para me bronzear por mais tempo quando saio de férias: 12%
• Para encontrar a pessoa amada: 8%
• Para ler: 0,01%
• Não sei: 40%
• Não responderam: 19,99%

Aos que responderam "Para me bronzear por mais tempo", fez-se a seguinte pergunta:

• Por que gosta de bronzear-se?

Respostas:

• Para não pensar mais: 70%
• Para ficar mais bonito (ou bonita): 20%
• Não responderam: 10%

Àquelas e àqueles cuja resposta foi "Para não pensar mais", perguntou-se (questão aberta):

• Quando pensa, em que pensa?

Respostas:

• Em nada: 80%
• Em meus problemas financeiros: 10%
• Em meus problemas familiares: 10%
• No sentido da História: 1%
• Na história do sentido: 1%

Akhenaton

Por vezes, interrogo-me sobre a origem de nossa preguiça. O professor Jacques Sternberg, da Universidade Católica de Louvain, antropólogo, zoólogo e teólogo de reputação mundial, adianta uma hipótese interessante.

Segundo ele, Deus teria criado o gato à sua imagem. O gato fez-se, portanto, preguiçoso, visto que Deus, todo-poderoso não necessitara fatigar-se para criar o universo. Não querendo o gato fazer nada, criou Deus o homem para o servir.

Ao gato Ele dera suas qualidades: indolência, lucidez, sistema sensorial sofisticado; ao homem Ele deu neurose, dom da bricolagem, paixão pelo trabalho e vaidade.

Graças a tais qualidades subsidiárias, o homem, ao longo dos séculos, edificou uma série de civilizações baseadas na invenção, na produção, no consumo intensivo, as quais edificaram-se, combateram-se, destruiram-se todas uma à outra mas assumiram, apesar de suas impiedosas e sangrentas lutas, a missão de que haviam sido investidas pela potência divina: oferecer ao gato o conforto, a toca e a coberta.


Extraído de "Akhenaton: a história do homem contada por um gato". Traduzido do Siamês por Gérard Vincent.

14.2.04

Viver pra sempre

Começo esse post com uma revelação constrangedora. Deveras.

A diversão favorita das minhas amiguinhas aos 12 era se reunir para me ver chorar escutando "Forever Young" do Alphaville. Por algum motivo obscuro aquela música me emocionava muito.

Forever young, I want to be forever young
do you really want to live forever, forever and ever?

Quase 2 décadas depois, eu tenho uma resposta. Imagino que uma grande parcela da população mundial adoraria viver para sempre. Mas eu não.

A princípio parece uma boa idéia. E nos oferecem uma visão tão romântica da vida eterna em filmes, livros, desenhos animados. Então eu resolvi imaginar como seria essa vida. Ivenka Highlander.

Os primeiros 100 anos foram muito divertidos. Tempo de sobra pra ler todos os livros que deixei acumular, viajar o mundo, conhecer pessoas, formar laços, me maravilhar, rir e muito mais.

O segundo século foi um pouco mais triste. Todos os que eu conheci e amei estavam irremediavelmente mortos. Já conhecia o mundo todo, apesar de que senti um prazer nostálgico em rever certas cidades e lugares. The books kept coming e a tecnologia não parou de me surpreender. Tudo muito rápido, de uma forma quase esquizofrênica, mas ainda asssim estimulante.

Aos 300 anos as coisas não foram nem excitantes nem tristes. Tudo o que eu consegui pensar foi no tédio infindável e no que podia fazer para afugentá-lo. Não me dei mais ao trabalho de me envolver com as pessoas, elas vem e vão mais rápido do que a dor de perdê-las. O planeta virou uma bola fumacenta com o termostato insanamente desregulado. Fiz todas as palavras cruzadas da Biblioteca Intergalática e enjoei do gosto de sorvete. (!)

No quarto século me apaixonei. De repente esta Terra árida recuperou a cor. Casei, procriei e fui pateticamente feliz. (Re)conheci o mundo ao lado dele, cantei, sonhei. Ele viveu bastante, graças aos avanços da medicina preventiva, mas irremediavelmente acabou morrendo. Mais algumas décadas e nossos filhos também se foram.

Os 500 anos foi uma época melancólica, dividida entre a saudade dele e a resignação. Sem vontade de fazer nada, passei décadas deitada, vendo TV e observando meus 20 gatos. Que saco essa vida eterna!

Visualizei os próximos séculos como uma bruma insossa, um cansaço infinito e um desejo de não ter desejado viver pra sempre. É, um século tá de bom tamanho pra mim.

10.2.04

Cartoon Network

Eu tenho essa teoria sobre desenhos animados e a formação da visão de mundo. Uma teoria meio desacreditada, é verdade. Mas eu acho que faz um certo sentido. It goes like this:

As crianças assistem desenhos animados no auge da fase em que estão apreendendo o mundo e criando referenciais. Deve existir uma relação direta entre o que assistem e o que acreditam.

Vou citar meu triste exemplo. Eu cresci assistindo Pica-Pau e Cia Ltda, Tom & Jerry e afins. Isso me tornou incapacitada para lidar com a noção de permanência da morte. Quando se morre, se continua morto. Pelo menos é o que dizem. Mas não foi o que eu aprendi vendo esses desenhos.

Estou sendo dramática? Acompanhem o desenrolar dos eventos.

Um rolo compressor passa em cima do Pica-Pau, o coitadinho fica todo achatado e mortinho. Mas é só soprar o seu dedão que ele volta ao normal.

O Coiote cai de um abismo gigantesco. Chega lá em baixo todo esmagado. Oh, o Coiote morreu! Não, o Coiote não morreu. Ele se descola do chão, sacode a poeira e era isso.

E aí vem bombas, marteladas, quedas, facadas, cofres na cabeça, veneno e tudo o mais. O que acontece? Nada! Estão todos vivos. E nem doeu.

Como esperam que a pobre Ivaninha acredite na permanência da morte? Como querem que eu acredite na permanência do que quer que seja? No way!

Talvez eu com minhas esquisitices não seja o melhor exemplo para generalizar reações geracionais. Confesso que ainda não encontrei outro expectador do Pica-Pau com o mesmo problema.

Mas vamos combinar, essas crianças que passam o dia assistindo Cartoon Network definitivamente vão se tornar adultos absurdamente sarcásticos...

9.2.04

Back in business

I now declare this weblog reopened.

26.12.03

Constato

Está tudo parado por aqui.
Por que mesmo?

Já não sei mais.

26.11.03

Bowie

the greatest thing you'll ever learn
is just to love and be loved in return