6.5.04

Dia 6 - Boas e más notícias

Primeira a boa: não rompi os ligamentos, apenas lesionei.

Agora a má: fraturei o fêmur.

Saldo da brincadeira: 30 dias com a perna imobilizada.

Vou aproveitar as férias forçadas para ler e gastar horrores de conta telefônica. Visitas serão apreciadas sem moderação.

5.5.04

Dia 5 - Quarta-feira bacana

Exame de ressonância magnética no hospital e exame de corpo delito na polícia.

Ai, ai.

Recomendo olhar para os lados ao passar por cruzamentos. Especialmente se a preferencial for tua.

4.5.04

Dia 4 - Relato

Começo o relato do acidente de carro dizendo que esse foi o episódio mais violento da minha vida. É certo que existem coisas muito mais violentas do que essa batida, mas eu nunca vivenciei nenhuma.

É uma sensação mista, de impacto físico e psicológico. Além da dor que senti, tive que lidar com o sentimento de impotência. Sabia que o acidente era inevitável, nada do que eu fizesse impediria aquele carro em altíssima velocidade de bater em mim, mas não consegui deixar de me perguntar "o que eu faço agora?"

Gritei algo tipo "oh, não', quando percebi que o carro não ia frear, seguido de 3 "ai, meu Deus", um pra cada impacto. Um "ai, meu Deus" quando o carro bateu na minha lateral, outro quando meu carro subiu na calçada e bateu num canteiro de cimento e o derradeiro quando bati no muro.

Depois de sair do carro e ver que o amigo que estava comigo estava bem, uma enxurrada de pensamentos me invadiu.

Ao constatar o lamentável estado de destruição total do meu carro pensei: puta merda, não posso dar undo. Já havia pensado isso algumas vezes depois de dizer algo na hora errada, ou fazer uma escolha que se revelou desastrosa. Mas nunca lamentei tanto a inexistência do control+z. (no meu caso command+z)

Depois fui tomada por uma súbita raiva e me virei pra moça de bolsa Louis Vitton parada na minha frente e falei ríspida: que raios tu tava pensando??? Ela parecia muito abalada e respondeu que não sabia e a culpa era toda dela. Isso me desarmou. Me fez ter pena dela. Afinal ela era responsável por tudo aquilo, e definitivamente também não tinha o poder do undo.

Logo após me dei conta de que *eu* era responsável pelo meu amigo e dei graças aos céus que ele estava bem. Mesmo que a culpa real fosse da mulher, eu estava dirigindo o carro.

Percebi em seguida que as minhas pernas doiam muito, e pedi pra sentar.

Sentada, enquanto aguardava a brigada chegar me envolvi em outro tipo de questionamento, do tipo "e se". E se a minha reunião tivesse terminado um pouco mais tarde o acidente teria acontecido? E se eu tivesse demorado mais a sair ela teria me acertado? E se eu não tivesse passado em casa pra pegar enzimas, teria sido igual? E se eu tivesse apenas demorado mais pra pegar as enzimas, como seria?

E se eu tivesse dobrado na Botafogo ao invés de seguir na Múcio, teria encontrado com a moça de bolsa Louis Vitton no cruzamento? E se eu tivesse tido tempo de frear? E se o sinal da esquina anterior estivesse aberto e não fechado? E se eu tivesse ficado em casa naquela segunda chuvosa? E se, e se, e se. Existe destino? Eu estava fadada a sofrer esse acidente? Não sei.

O que me irrita agora, que estou com a perna imobilizada da coxa até o tornozelo é que isso é um fator incrivelmente limitador. Sei que poderia ter sido muito pior e talvez eu não estivesse aqui pra fazer esse relato. Mas ainda assim vou perder muitas aulas no mestrado, tive que adiar um dos cursos de roteiro e o outro pode seguir o mesmo caminho. Tenho que ficar deitada com a perna esticada o dia inteiro e tudo o que eu quero fazer tenho que pedir para os outros fazerem por mim. Mas again, estou viva.

Meu último pensamento ontem antes de dormir foi que realmente, assim como é mostrado nos filmes, em situações traumáticas o tempo se modifica, fica elástico. As coisas ficam um pouco mais lentas, se percebe os movimentos de forma diferente, as cores e texturas ficam ligeiramente alteradas. Mas não exatamente como nos filmes.

Não é um slow motion total, é apenas um pouco mais lento, tipo 1/5 ou 1/6 da velocidade normal. Pelo menos comigo foi assim. E esse pequeno filminho que criei na minha cabeça ficou se repetindo ao longo do dia, e a cada exibição ele se modificava um pouquinho, somando ou subtraindo elementos. Mas a qualidade emocional, essa permanece a mesma. Afinal, foi o episódio mais violento da minha vida.

Dia 3 - Sofri um acidente

Ok, ok, tecnicamente hoje já é o dia 4, mas eu gastei as últimas horas do dia 3 vendo uma louca a alta velocidade destruir meu carro, fazendo ocorrência, indo ao hospital e gemendo de dor .

Portanto, acho que um atrasinho agora não me desclassifica na maratona.

Mais info no dia 4. Não estou exatamente no mood agora.

2.5.04

Dia 2 - When enough is enough?

Sabe aquelas situações arrastadas, continuadas, que parecem não ter fim? Tipo doenças crônicas, conflitos eternos, dores que não vão embora, padrões sentimentais que se repetem ad nauseum.

Convivi mais de 6 meses com uma tensão muscular incessante que atendia pelo nome de fibromialgia. Sentia dores nos ombros e pescoço diariamente, o tempo todo. As bolsas de água quente se tornaram minhas melhores amigas e eu fazia fisioterapia 5 dias por semana.

Fora isso, tomava os atrozes relaxantes musculares que faziam eu me sentir como um zumbi de 200 quilos. E dê-lhe exame, e dê-lhe pesquisar na internet, e dê-lhe massagem, e dê-lhe terapia, e dê-lhe gastar dinheiro e tempo e nada da fibromialgia me largar.

Até quando se aguenta algo que machuca? Pode-se dizer: estou cansada, agora chega, não aguento mais. Mas se a coisa em questão continua é porque ainda se aguenta um pouquinho mais. Eu reclamava, me escabelava, as vezes chorava, mas seguia levando.

Então eu resolvi largá-la.

Um dia eu disse CHEGA. Mas um chega de coração, daqueles passionais e homicidas. E a dor se foi. Deve ter se assustado. Junto com ela foi um monte de coisas que me faziam infeliz. Foi uma liberação! Simples assim.

De onde concluí que não basta apenas querer se liberar, é preciso desejar ardententemente com todos os átomos do seu ser. Quando realmente não se aguenta mais, há um "cessamento".

E aí, a liberação acontece. When enough is enough.

1.5.04

Dia 1 - Das maravilhas do leite de soja

Em 1999 descobri ser portadora de uma deficência física. Sou intolerante à lactose. Isso significa que não posso digerir leite e todos os seus derivados. E quando eu digo todos, eu quero dizer realmente todos. Sorvete, chocolate, queijo, creme de leite...

A primeira coisa que fiz foi levantar os olhos aos céus e perguntar: Por que? Por que? Oh, Deus, por que???

Ao que tudo indica, meu pai teve intolerância à lactose na infância. Reza a lenda que ele sofreu um "fartão" de queijo e se "curou" tomando leite de cabra, conhecidamente lactose free.

Comprei o leite de cabra e odiei. Realmente odiei.

Deixei-o na geladeira, e minha mãe ficou com pena de ver o leite estragar. Tomou o renegado e instantaneamente o inchaço que ela vinha sentindo há mais de 2 décadas desapareceu. Oh, então minha mãe também tem intolerância à lactose!

O que parece um mero acaso faz muito sentido dentro da lógica cruel da loteria genética. Meu pai e minha mãe tem olhos verdes e dos seus quatro filhos eu sou a única de olhos verdes. Então se os dois têm intolerância à lactose, nada mais justo do que eu ser a única a receber esta herança também.

É, uma compensação cósmica da qual meus irmãos devem dar muita risada. Quer olho verde? Então toma uma intolerância à lactose aí.

Como não curti o leite de cabra, minha alternativa foi tentar o leite de soja. E foi aí que minha vida mudou. Me apaixonei perdidamente. Torrencialmente. Hoje em dia não trocaria-o por leite de vaca nem se a minha vida dependesse disso.

Ele vem da soja, ele é gostoso, ele é cheiroso, ele é fonte de vitaminas A e D, ele tem gostinho de baunilha, ele é livre de colesterol, ele não tem adição de açúcar, ele fica ótimo com Nescau, ele é fantástico com granola, ele fica magnífico no bolo, ele tem apenas 60 calorias!

E o melhor ainda estar para ser dito: uma xícara de leite de soja com Nescau me sacia completamente por 4 horas inteiras! "No mister, I need no more. I'm alrighty here". Fora um almoço completo, com arroz, feijão, carne e salada, que outra coisa tem esse poder?

Por isso vos digo, conhecei os encantos do leite de soja e vossa vida se transformará!

Maratona blog.ivenka

Instigada por amigos caríssimos, que escrevem 20 posts por dia, ao contrário de mim que escrevo um a cada 20 dias, resolvi instituir a maratona blog.ivenka.

As regras são simples. Esta Ivenka que vos escreve deverá escrever algo todo dia durante 20 dias, e este algo deverá ter um mínimo de 20 caracteres.

No caso de descumprimento das regras supracitadas, estarei condenada a nunca mais falar comigo. E aconselho a todos a fazerem o mesmo.

Estão abertos os trabalhos.

5.4.04

O Caibalion

Existe um pequeno grande livro chamado O Caibalion, que é o mais potente abridor de latas mental com que eu já me deparei. Ele é absurdamente simples e complexo ao mesmo tempo. Tudo faz sentido. Aos que se interessam por filosofia e o imaterial, recomendo-o entusiasticamente.

Nos últimos dias venho pensando bastante a respeito de um dos princípios da filosofia hermética, o Princípio do Ritmo:

"Este princípio contém a verdade que em tudo se manifesta um movimento para diante e para trás, um fluxo e refluxo, um movimento de atração e repulsão, um movimento semelhante ao do pêndulo, uma maré enchente e uma maré vazante, uma maré alta e uma maré baixa.

Existe sempre uma ação e uma reação, uma marcha e uma retirada, uma subida e uma descida. Isto acontece nas coisas do Universo, nos sóis, nos mundos, nos homens, nos animais, na mente, na energia e na matéria".

Como tudo, o humor oscila segundo o princípio do ritmo, como um pêndulo. Indo de uma polaridade a outra. Feliz - triste. Feliz - triste. Feliz - triste. Segundo Hermes Trismegisto não adianta querer parar o pêndulo, pois ele faz parte do funcionamento do Universo. A alquimia consiste em se elevar, estar acima do pêndulo e assim não ser afetado por seus ritmos e oscilações.

Delirei quando descobri que transformar chumbo em ouro é uma alegoria e que a verdadeira transmutação é mental. Decidi que queria ser uma hermetista, uma alquimista!

A felicidade é criada e reside na mente. Depende apenas de nós. Entretanto, quando as coisas ao nosso redor vão bem, estamos bem. Quando vão mal, estamos mal. De alguma maneira é preciso encontrar um ponto de equilíbrio, uma serenidade interna, um estar bem consigo mesmo que independe das circunstâncias externas.

É difícil, mas não impossível. Ainda quero ser uma alquimista...

22.3.04

Matrícula

Passei 6 anos me matriculando na Fabico todos os semestres. A melhor expressão pra descrever essa experiência é "Inferno na Terra".

Cadeiras que apareciam sem nota, ou que desapareciam sem deixar rastro, opcionais estouradas, filas enormes, dedo no olho, os inevitáveis pedidos de quebra de pré-requisitos e assemelhados repetiam-se exaustivamente, sem o mínimo pudor.

Ainda marcada por todos esses anos de abuso, fui fazer minha matrícula no mestrado. Enquanto esperava a minha vez na pequenina fila (será que vim no dia certo???), tremia levemente.

A porta se abriu e a coordenadora chamou o próximo. Ei, eu sou a próxima! Uma gotinha de suor escorreu pelo canto do meu rosto e hesitei por um segundo. Então me leventei, determinada. Que venga el toro! Mas que sea paralitico!!!

Quando entrei na salinha um portal se abriu e todo o universo conspirou a meu favor. Seres angelicais feitos de pura luz sussurraram ao meu ouvido algo que poderia ser toscamente traduzido por "não tema mais, doce Ivana, peça e serás atendida".

Bliss! Oh, such great bliss!

Havia vagas em todas as cadeiras, e eu não só podia, como devia escolher as que mais me interessavam! A coordenadora me ajudou a preencher o formulário com um sorriso, levei a folhinha até a secretaria e pronto, estava matriculada. Assim, no mais.

Enquanto voltava pra casa, sorria comigo mesma.

12.3.04

Autógrafo

Então o mais bizarro e inusitado fato a ser imaginado aconteceu: a caixa do supermercado me pediu um autógrafo. (!!!!) E eu surtei e me recusei. (????)

Ainda tô tentando entender o que aconteceu. Ela perguntou se eu era "artista", eu disse baixinho que fazia cinema. Ela chamou todas as amigas que estavam na volta, apontou pra mim e disse "ela é artista, ela faz cinema"! Eu gelei e suei, pensei em sair correndo e deixar as compras. E aí ela disse que me viu na televisão e pediu o famigerado autógrafo. Ela nem sabia o meu nome, mas queria um autógrafo.

Ok, isso é fútil e medíocre, mas apenas um reflexo da nossa sociedade voltada para a fama, e o desejo de ser elevado da rotina sufocante das nossas vidas pequenas custe o que custar. E pra ela, ter um rabisco feito por alguém que apareceu alguns segundos na TV talvez já seja um começo. Não era motivo pro pânico que eu senti.

Mas então, por que o pânico?

Tenho problemas com esse assunto de "fama", isso é fato. Acho que o valor das pessoas não se mede por prêmios, por quem ela conhece, por quanto ganha, por quantas vezes apareceu na coluna social ou na TV. Me revolto com o esvaziamento de tudo o que é verdadeiramente humano: o conhecimento, o amor, o senso de comunidade, o caráter. Viramos todos macaquinhos atrás da banana da fama.

Mas confesso que não é só isso. Me assusto quando alguém que eu não conheço me conhece. Me sinto indefesa, me sinto exposta. Isso me fez pensar que talvez pessoas que eu não conheço leiam o que eu escrevo e me vejam fazendo caretas no fotolog. E isso é muito muito muito spooky.

Nós voluntariamente nos despimos na frente de desconhecidos, estendemos as entranhas em cima da mesa pra quem quiser ver. E por que? Auto expressão? Talvez. Exibicionismo? Mais provável. Talvez na expectativa de que aqueles que nos conheçam aprendam a nos conhecer mais um pouco.

E se isso me assusta, faço o que? Deleto blogs, fotologs, carreira? Acho que não. Vou ter que lidar com as minhas fobias. E pedir desculpas à menina do supermercado. Que não deve ter entendido nada. Assim como eu.